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Quando uma região entra em instabilidade, o capital não fica parado. Procura destinos seguros, mercados estáveis, países onde as regras não mudam de um dia para o outro. E nos últimos meses, esse capital tem vindo para Lisboa em quantidades que o mercado está a sentir.
Desde o início do ano, os profissionais do sector em Portugal têm registado um aumento notório de consultas e visitas de compradores oriundos do Médio Oriente. Não é um fenómeno marginal — é uma tendência com reflexo directo nas transacções. O segundo trimestre de 2025 fechou com crescimento de 15,5% no volume de transacções, com o total transaccionado por famílias a ultrapassar os €8,9 mil milhões. O investimento estrangeiro em imobiliário português atingiu €3,9 mil milhões em 2025, novo máximo histórico, com crescimento de 10% face ao ano anterior.
A turbulência no Médio Oriente veio adicionar uma nova camada a uma procura que já era forte.
O perfil do comprador proveniente do Médio Oriente é específico: quer imóvel pronto a habitar, exige manutenção reduzida, não abdica da estabilidade política. Não está a especular — está a proteger capital e, muitas vezes, a preparar uma segunda residência ou uma saída de emergência para a família.
Lisboa oferece exactamente o que este perfil valoriza. Estabilidade política num país da NATO e da União Europeia. Qualidade de vida mensurável. E preços que, mesmo nos €12.000 por metro quadrado da Avenida da Liberdade, ficam muito abaixo de Knightsbridge ou de Palm Jumeirah.
Esse diferencial é o argumento de fecho. Não preciso de o inventar — os compradores fazem a conta sozinhos.
Uma nova vaga de procura num mercado com oferta já condicionada tem um efeito previsível nos preços. Os projectos em pipeline em Lisboa e arredores — como o desenvolvimento de €150 milhões no Parque das Nações com 180 apartamentos em dois blocos de 14 andares, ou os 101 apartamentos de um projecto de €60 milhões a 20 minutos de Lisboa e de Cascais — vão ser absorvidos rapidamente. Não há folga no mercado para acomodar esta procura sem pressão ascendente nos preços.
A previsão de crescimento de 4% a 5,9% para 2026 — quando a média global não ultrapassa 1,3% — já reflectia uma equação de escassez estrutural. Esta nova vaga de compradores não vai suavizar essa equação.
Em três décadas e meia de mercado, já vi várias vagas de procura internacional chegar a Portugal. Cada uma deixou o mercado num nível de preços superior ao que encontrou. Americanos nos anos 2000. Brasileiros a seguir. Britânicos e nórdicos depois da crise. Americanos outra vez, em força, nos últimos dois anos. E agora, uma nova entrada proveniente do Médio Oriente.
Portugal tem um perfil difícil de replicar: clima, segurança, estabilidade institucional, acesso à Europa. Não é um produto de marketing — é um activo que o país foi construindo durante décadas. Cada vez que o mundo fica mais instável, esse activo valoriza-se.
Não porque haja uma campanha a funcionar. Mas porque o comprador sofisticado, seja americano, britânico, brasileiro ou saudita, faz a comparação entre as alternativas disponíveis e chega sempre à mesma conclusão.
Lisboa não precisa de ser o sonho de ninguém. Precisa apenas de continuar a ser o que é: um mercado estável, com produto de qualidade e preços que ainda fazem sentido. O mundo encarrega-se do resto.